SELECIONADO PARA O É TUDO VERDADE, ‘CARCEREIRAS’ RETRATA A VIDA E OS DILEMAS DE MULHERES QUE ESCOLHERAM UMA DAS PROFISSÕES MAIS PERIGOSAS DO MUNDO |
Dirigido por Julia Hannud, documentário acompanha Ana Paula e Mariana que, entre a saudade da família e a busca por um futuro melhor, ganham a vida como agentes penitenciárias |
Num país marcado por profundas desigualdades como o Brasil, milhares de mulheres vivem hoje privadas de liberdade. Dados recentes apontam que cerca de 42 mil delas ocupam celas em unidades do sistema penitenciário nacional. Mas estas não são as únicas que passam dias e noites dentro dos presídios, como mostra o documentário CARCEREIRAS, selecionado para o É Tudo Verdade.
Dirigido por Julia Hannud, que há anos pesquisa o microcosmo prisional feminino, o filme vira a câmera para o outro lado e traça um retrato íntimo de quem aceitou o risco de uma das profissões mais perigosas do mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT): as agentes penitenciárias. Produzido pela UMA Filmes, com distribuição da Descoloniza Filmes, o documentário acompanha Ana Paula, 42 anos, e Mariana, 25, mulheres com histórias, sonhos e ambições distintas, que trabalham em unidades prisionais no Estado de São Paulo. |
Seus caminhos nunca se cruzam, mas suas trajetórias se aproximam em paralelos reveladores: ambas almejam transferências, mas por motivos e para destinos diferentes, enquanto convivem com a distância familiar.. De um lado, o rigor da disciplina imposta pelo uniforme; do outro, a necessidade indispensável para amparar outras mulheres.
Entre muros altos e grades de ferro, em um ambiente marcado pela insegurança e pela solidão, CARCEREIRAS investiga o que acontece nos corredores frios das penitenciárias femininas na busca por responder a uma pergunta central: afinal, quem cuida de quem cuida?
O filme terá sua estreia mundial no É Tudo Verdade, o maior festival de documentários da América do Sul, que acontece entre os dias 9 e 19 de abril. |
SINOPSE Ana Paula (42) e Mariana (25) trilham caminhos paralelos como agentes penitenciárias, distantes de suas raízes e laços afetivos. Enquanto Mariana sonha com uma transferência que impulsionará sua carreira e vida adulta, Ana Paula almeja o retorno a São Paulo e a vida na metrópole. Os dias exaustivos dentro das unidades prisionais tornam as decisões cada vez mais difíceis pela busca por um futuro. Em época de Natal, as emoções se acentuam, tanto por um sonho de liberdade das presas, como por um desejo de pertencimento das servidoras. Afinal, quando tudo parece estar perdido, em quem elas podem confiar? |
A DIRETORA Julia Hannud é diretora de documentários autorais e fundadora da UMA FILMES, produtora independente sediada em São Paulo, dedicada a obras de caráter experimental e documental. Dirigiu o curta-metragem Amor, Só de Mãe (2018), selecionado para a shortlist do Student BAFTA 2019, e o longa Saudade Mundão (2020), que estreou no FESTin Lisboa e aborda narrativas de mulheres em situação de cárcere no Brasil. O filme está disponível em plataformas digitais como Amazon Prime, Google Play e Apple TV.
Também dirigiu o curta Bacuranao, realizado durante seu mestrado em documentário na EICTV, em Cuba, atualmente em fase de finalização. Seu novo longa documental, Carcereiras, foi selecionado para o Cannes Docs 2025 e agora estreia no É Tudo Verdade, o maior festival de documentários da América do Sul.
Como produtora, esteve em projetos como The Prison Beauty Contest (2018), de Srdjan Sarenac, e Partir (2018), de Sonia Guggisberg, também foi selecionado para o É Tudo Verdade. Participou como diretora de produção das obras de Jorge Bodanzky como, Ruivaldo o Homem que Salvou a Terra (2021) e Amazônia, a Nova Minamata? (2023). Como produtora executiva, desenvolve os longas Ainda há ontem aqui (2025), de Jô Serfaty e Prisão Mulher - Hoje, de Paula Sacchetta.
Entre seus projetos em desenvolvimento está Salvador Sou Eu, que investiga a diáspora síria no Brasil nos anos 1920 a partir da história de seu bisavô. Julia é ex-aluna da escola EICTV, em Cuba e mestra em documentário de de criação pela Universidade Pompeu Fabra, na Espanha. |
FILMOGRAFIA (como diretora) Amor, Só de Mãe (2018, curta-metragem) Saudade Mundão (2020, longa-metragem) Carcereiras (2025, longa-metragem) Bacuranao (em finalização, curta-metragem) Salvador Sou Eu (em desenvolvimento) |
COM A PALAVRA, A DIRETORA Depois de 10 anos realizando filmes sobre mulheres no sistema prisional, o que te mantém interessada nesse universo e o que essa trajetória foi te revelando ao longo do tempo? O que me mantém interessada no sistema prisional, após uma década de pesquisa, é a percepção de que ele não é um mundo isolado, mas o espelho mais nítido das nossas falhas sociais. Se no início minha motivação nasceu de perguntas pessoais sobre os muros que separavam o privilégio do abandono na minha vizinhança, hoje o que me move é a urgência de entender como a violência institucionalizada molda o comportamento humano.
Ao longo dessa trajetória, percebi que a prisão transborda para fora das grades, revelando a seletividade de um olhar que invisibiliza mulheres muito antes do cárcere, o adoecimento de quem opera o sistema e, ao mesmo tempo, a resistência de subjetividades que preservam o afeto em espaços de aniquilação. Meu desejo é não permitir que essas histórias sejam reduzidas a números, buscando sempre a fissura por onde a humanidade respira e provocando a consciência sobre a necessidade de superarmos o punitivismo como única forma de resolução de conflitos. Em CARCEREIRAS, você desloca o olhar para as agentes penitenciárias. O que mudou no seu entendimento sobre o sistema prisional feminino a partir desse encontro com elas?
Ao deslocar o meu olhar para as agentes penitenciárias em CARCEREIRAS, o meu entendimento sobre o sistema prisional feminino se expandiu ao perceber que a punição é uma engrenagem que não escolhe apenas um lado para moer. Se antes meu foco estava na na narrativa das mulheres presas, esse encontro me revelou que quem opera a máquina do Estado também é atravessado por uma violência institucionalizada e legalizada.
Percebi que o controle e a vigilância constantes geram um estado de tensão permanente que não termina quando o plantão acaba; ele transborda para a vida pessoal dessas mulheres, evidenciando que, em uma estrutura desenhada para o confinamento, ninguém sai realmente ileso. O filme, portanto, amadureceu minha visão ao mostrar que o sistema carcerário é um campo de forças onde o poder e o trabalho se fundem, afetando profundamente a subjetividade de todos os corpos que habitam aquele espaço. |
ELENCO Ana Paula Pessoa Mariana Fazan
Com a participação de: Arine Fernandes de Oliveira, Davi Lucas Martins Timotes, Fernanda Pereira de Moraes, Milena Pereira Dezzotti dos Santos, Raquel Beraldo, Silvana Aparecida de Oliveira Fazan e Valadelice Pessoa da Silva Timotes. |
FICHA TÉCNICA Direção | Julia Hannud Roteiro | Iana Cossoy Paro e Julia Hannud Produção | Julia Hannud e Sabrina Zimmermann Produção executiva | Bárbara Cunha, Nuno Godolphim e Sabrina Zimmermann Direção de fotografia | João Atala Som direto | Olivia Hernández Assistência de direção | Georgia Kirilov Direção de produção | Luiza Ramos Montagem | Affonso Uchôa Edição de som | Vitor Coroa Mixagem | Paulo Gama, ABC Empresa produtora | UMA FILMES Co-produção | SPCINE, Cajamanga, Filmes de Pedra, GoDolphim Films Produção associada | 99 Produções, Tiempo, Monster Cam (versão em preto e branco)
Título internacional | Jailers Gênero | documentário Duração | 94 minutos País e ano de produção | Brasil, 2025 |
SOBRE A UMA FILMES A Uma Filmes foi fundada em 2017, em São Paulo, pela cineasta e produtora paulista Julia Hannud. Desde então, a produtora vem se consolidando como uma força emergente no cenário audiovisual brasileiro, com foco na realização de documentários e filmes experimentais voltados para temáticas relacionadas aos direitos humanos e aos direitos das mulheres.
Comprometida com a valorização de vozes femininas no cinema, a Uma Filmes busca promover narrativas que encorajem mulheres a contar suas próprias histórias, por meio de produções autorais, sensíveis e politicamente engajadas. A produtora apoia abordagens autênticas e inovadoras, capazes de explorar a complexidade das realidades e identidades contemporâneas.
Por meio de suas obras, a Uma Filmes visa estabelecer conexões com uma audiência global diversa, ampliando o alcance de histórias profundamente humanas, e contribuindo para um audiovisual mais plural, representativo e transformador. |
FILMOGRAFIA – UMA FILMES Campo Skaramanga (2017), direção: Sonia Guggisberg (curta-metragem) Gabriel (2017), direção: Julia Hannud (curta-metragem) Espera (2018), direção: Sonia Guggisberg (curta-metragem) Partir (2018), direção: Sonia Guggisberg (curta-metragem) Amor, Só de Mãe (2019), direção: Julia Hannud e Catharina Scarpellini (curta-metragem) Sem Rosto (2019), direção: Sonia Guggisberg (longa-metragem) Saudade Mundão (2020), direção: Julia Hannud e Catharina Scarpellini (longa-metragem) Carcereiras (2025), direção: Julia Hannud (longa-metragem) Bacuranao (2024), direção: Julia Hannud (curta-metragem) - em desenvolvimento Cá Estamos, Cá Estivemos (2026), direção: Juliana Serfaty (longa-metragem) Cuidado Substantivo Feminino (2026), direção: Helena Dias (longa-metragem) Prisão Mulher (2026), direção: Paula Sacchetta (longa-metragem) Salvador Sou Eu (2027), direção: Julia Hannud (longa-metragem) |
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